quarta-feira, 26 de julho de 2017

Raízes de quem fui

Moçambique 23 de julho de 1989.
Nina

As raízes de quem fui
Para lembrar que Moçambique foi a raiz de minha vida. O mundo será pequeno a partir daqui? Quem lerá minhas confissões, será uma outra menina com sonhos, e os olhos cheios de amor? Será um ex-soldado que guarda os traumas da guerra em África? Será que alguém lerá meus poemas? Estou partindo hoje para uma nova vida, longe das minhas raízes, de onde eu aprendi a usar a minha principal arma que é a escrita.

Da natureza que adentra os corpos
As Folhas, as flores e os frutos
São órgãos que regem a dança

Das árvores que dançam
Com o vento que dita o ritmo
Música raiz

Enraíza-se no chão da terra
Que entre os órgãos
É o nosso coração.

Música raiz

Da infância em África
Entre guerras, lutas e solidão
Sou menina
Querendo ser mulher
Sou saída
Querendo solução
Sou filha
Querendo atenção
A juventude em África
Sou menina
Querendo revolução
Sou ainda menina
Querendo decisão.

Quando a gente é criança
A gente é tão curiosa
A imaginação é tão fértil
Geramos tantos frutos
Criamos tantos sonhos
Que até parecem realidade
Que até parecem árvores.

A minha casa que não era casa
Do meu quintal que era a minha casa
Da minha ama que não era ama
Era mãe
E a mãe que não tinha afeto
E o pai que estava tão perto

A minha casa
Deixo-a para trás
Irei em busca de outros quintais.


A quem encontrar essa carta, por favor, não a rasgue ou a coloque no fogo. Pelo contrário, leia-a, reflita-a, você se identifica comigo ou somos dois seres humanos completamente diferentes? Seja lá o que for que está pensando nesse momento, se possível me mande uma resposta. A semente que planto nesse exato momento ou gerará frutos, caso me escreva, ou morrerá, caso decida jogá-la fora antes mesmo de receber as primeiras gotas de água.